jueves, 28 de marzo de 2013

A Alemanha contra a Europa (o artigo censurado pelo “El País”)

É muito significativo que habitualmente se fale de “castigo” quando se referem as medidas que Merkel e os seus ministros impõem aos países mais afetados pela crise.

Dizem aos seus compatriotas que têm de castigar a nossa irresponsabilidade para que o nosso esbanjamento e as nossas dívidas não sejam agora pagas pelos alemães. Mas o raciocínio é falso, pois os irresponsáveis não foram os povos que Merkel se dedica a castigar, mas sim os bancos alemães que ela protege e os de outros países aos quais emprestaram dinheiro, eles sim com irresponsabilidade, para obter ganhos multimilionários.

Os grandes grupos económicos europeus conseguiram estabelecer um modelo de união monetária muito imperfeito e assimétrico que logo reproduziu e ampliou as desigualdades originais entre as economias que a integravam. Além disso, graças à sua enorme capacidade investidora e ao grande poder dos seus governos, as grandes empresas do Norte conseguiram apossar-se de grande quantidade de empresas e mesmo de setores inteiros dos países da periferia, como a Espanha. Isso provocou grandes défices comerciais nestes últimos e superávit sobretudo na Alemanha e em menor medida noutros países.

Paralelamente, as políticas dos sucessivos governos alemães concentraram ainda mais o rendimento no cume da pirâmide social, o que aumentou o seu já alto nível de poupança. De 1998 a 2008, a riqueza dos 10% mais ricos da Alemanha passou de 45% para 53% do total, a dos 40% seguintes de 46% para 40% e a dos 50% mais pobres de 4% para 1%.

Essas circunstâncias puseram à disposição dos bancos alemães enormes quantidades de dinheiro. Mas em lugar de empregá-lo a melhorar o mercado interno alemão e a situação dos níveis de rendimento mais baixos, usaram-no (uns 704.000 milhões de euros até 2009, segundo o Banco Internacional de Pagamentos) para financiar a dívida dos bancos irlandeses, a bolha imobiliária espanhola, o endividamento das empresas gregas ou para especular, o que fez com que a dívida privada na periferia europeia disparasse e que os bancos alemães se enchessem de ativos tóxicos (900.000 milhões de euros em 2009).

Ao explodir a crise, ressentiram-se gravemente mas conseguiram que a sua insolvência, em lugar de se manifestar como consequência da sua grande imprudência e irresponsabilidade (à qual Merkel nunca se refere), se apresentasse como o resultado do esbanjamento e da dívida pública dos países onde estavam os bancos a quem emprestaram. Os alemães retiraram rapidamente o seu dinheiro destes países, mas a dívida ficava nos balanços dos bancos devedores. Merkel erigiu-se na defensora dos banqueiros alemães e, para ajudá-los, pôs em marcha duas estratégias. Uma, os resgates, que venderam como se se destinassem a salvar os países, mas que na realidade consistem em dar aos governos dinheiro em empréstimos que serão pagos pelos povos, para transferir para os bancos nacionais de forma a que estes se recuperem quanto antes e paguem em seguida aos alemães. A outra estratégia foi impedir que o BCE cortasse de raiz os ataques especulativos contra a dívida da periferia para que, ao subirem os prémios de risco dos outros, baixasse o custo com que a Alemanha se financia.

Merkel, como Hitler, declarou guerra ao resto da Europa, agora para garantir o seu espaço vital económico. Castiga-nos para proteger as suas grandes empresas e bancos e também para ocultar ao seu eleitorado a vergonha de um modelo que fez com que o nível de pobreza no seu país seja o mais alto dos últimos 20 anos, que 25% dos seus trabalhadores ganhe menos de 9,15 euros/hora, ou que a metade da sua população receba, como disse, uns miseráveis 1% de toda a riqueza nacional.

A tragédia é a enorme conivência entre os interesses financeiros paneuropeus que dominam os nossos governos, e que estes, em vez de nos defenderem com patriotismo e dignidade, nos traiam para atuar como meros comparsas de Merkel.

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